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A estratégia de inovação que está revolucionando a percepção de valor do produto chinês


A estratégia de inovação que está revolucionando a percepção de valor do produto chinês



"Fabricado na China" carregou, por décadas, um significado quase fixo: preço baixo, qualidade duvidosa, produto descartável. Os dados de 2026 mostram uma reviravolta em andamento, e ela não é acidente de mercado, é resultado direto de uma estratégia de Estado formulada em 2015 e executada com uma disciplina pouco comum. Este artigo detalha essa estratégia, os números que a sustentam e os dois setores onde seus resultados já são mais visíveis: veículos elétricos e varejo físico.


A virada começou com um plano de governo, não com o mercado


Em 2015, o governo chinês lançou o plano "Made in China 2025", uma estratégia decenal explícita para transformar a China de "fábrica do mundo", associada a manufatura barata, em potência tecnológica, com liderança em setores como robótica, veículos elétricos, semicondutores e inteligência artificial. Diferente de estratégias de branding tradicionais, essa foi, desde o início, uma política industrial: investimento maciço em P&D, subsídio direcionado a setores estratégicos e uma reformulação de como produtos chineses são desenhados, fabricados e vendidos globalmente.


O resultado mais recente e mais simbólico dessa aposta veio em 2026: pela primeira vez, o gasto total em P&D da China superou o dos Estados Unidos em valor absoluto, encerrando décadas de liderança americana nesse indicador. Diferente do modelo americano, fragmentado entre capital de risco e investimento corporativo privado, a China opera um modelo centralizado, capaz de mobilizar recursos em escala que o mercado privado dificilmente replica, sobretudo em pesquisa fundamental de retorno lento, como inteligência artificial, computação quântica, semicondutores e biotecnologia.


Os números da corrida de patentes confirmam a mudança de eixo


O indicador mais objetivo dessa transformação está nos registros internacionais de propriedade intelectual onde desde 2019, a China lidera o ranking de pedidos de patente internacional da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO), posição que ampliou em 2025: 73.718 pedidos, à frente dos Estados Unidos (52.617), Japão (47.922), Coreia do Sul (25.016) e Alemanha (16.441).


Gráfico 1 — Pedidos de patente internacional por país de origem (2025)


No nível corporativo, a Huawei é a maior depositante de patentes internacionais do mundo pelo nono ano consecutivo, com 7.523 pedidos em 2025, à frente de Samsung e Qualcomm. Entre as dez maiores depositantes globais, seis são empresas chinesas de comunicação digital, incluindo Xiaomi, que registrou o maior crescimento percentual do ranking (+17,8%) em pedidos publicados. Isso não é evidência de que o centro de gravidade da inovação tecnológica global se deslocou fisicamente.


Onde a estratégia já mudou percepção: veículos elétricos


A BYD ultrapassou a Tesla em 2023 e se tornou a maior fabricante de veículos elétricos do mundo, somando mais de 15,8 milhões de unidades acumuladas até 2026, ainda assim, a confiança global em marcas chinesas permanece baixa: 30% segundo o Edelman Trust Barometer, contra 62% para marcas alemãs, um hiato que a estratégia de inovação está fechando de forma ativa, não passiva.


Gráfico 2 — Hiato de confiança em marcas (esquerda) e crescimento de vendas da BYD na Europa (direita)


Três alavancas explicam esse avanço apesar da desconfiança residual. Primeiro, ciclo de inovação: montadoras chinesas lançam modelo novo a cada 18–24 meses, contra 5–7 anos das tradicionais, segundo análise do Lowy Institute, segundo, controle de qualidade na exportação: a partir de 2026, o governo chinês passou a bloquear a saída de veículos elétricos abaixo de padrão mínimo, protegendo deliberadamente a reputação da indústria no exterior, terceiro, presença agressiva em mercados de prestígio: as vendas da BYD na Europa triplicaram no início de 2026, superando fabricantes tradicionais em registros em múltiplos mercados.


Onde a estratégia já mudou percepção: varejo físico


O mesmo padrão aparece no varejo, com um caso ainda mais explícito de engenharia de percepção: a Miniso. Nascida como uma "loja de um dólar" chinesa, a marca hoje ocupa endereços ao lado de Hermès e Louis Vuitton, Times Square, Fifth Avenue, Champs-Élysées, Oxford Street, Dubai Mall. A escolha de localização não é sobre tráfego: é sobre reprogramar, pela vizinhança física, a categoria de qualidade à qual a marca é associada.


Os números sustentam a estratégia: receita internacional de US$ 240 milhões só no primeiro trimestre de 2025, crescimento de 30% ano a ano, e mais de 3.100 lojas fora da China entre um total de 7.780 lojas globais. A isso se soma um movimento deliberado de licenciamento de propriedade intelectual global, colaborações com Disney, Marvel e outras franquias, deslocando a marca da categoria "loja de tudo por um dólar" para "varejo de design com licenciamento premium".


O padrão comum: mudar percepção pela evidência, não pelo discurso


Em ambos os setores, a estratégia chinesa não tenta convencer o consumidor com comunicação isolada, ela reformula o contexto material em que a marca aparece.

Reduzir o ciclo de lançamento de produto, elevar o padrão mínimo de exportação, liderar registros globais de propriedade intelectual e ocupar fisicamente o mesmo espaço das marcas que já carregam a qualidade percebida são expressões diferentes do mesmo movimento estratégico: fazer a percepção de qualidade seguir a evidência de produto, e não esperar que ela mude por conta própria com o tempo.


Esse é o núcleo da transição que a própria indústria de marca já nomeia como a passagem de "Made in China" para "Created in China", de país que executa projeto alheio para país que desenha, registra e exporta propriedade intelectual própria em escala.


Leitura estratégica


A lição para qualquer marca ou país que carregue um estigma de origem, categoria ou preço é direta: percepção não muda com campanha publicitária isolada, muda quando produto, ritmo de inovação, controle de qualidade e presença física contam, ao mesmo tempo, uma história diferente da que o mercado está acostumado a repetir. A China não pediu para ser vista de outra forma. Ela mudou a evidência disponível até que a percepção não tivesse mais como ficar para trás.


Fontes: Made in China 2025 (CSIS, Rhodium Group); dados de P&D via UPI/Science-Technology News (2026); WIPO PCT Yearly Review 2025; Edelman Trust Barometer 2024; Rest of World; Lowy Institute; MEXC News (2026); Oreate AI, MatrixBCG e The Strategy Story sobre Miniso; TEAM LEWIS, "China's Brand Allure Is Shifting from 'Made in China' to 'Created in China'".




Marcele Brunel

Future Thinking / Design 






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