A Inteligência Artificial vai tornar o marketing medíocre
- Emi Monteiro

- há 2 dias
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O paradoxo da eficiência e a "inundação bege" Da criação à curadoria: a nova hierarquia de valor Aposte na experiência humana
Durante a última década, o "Santo Graal" do marketing digital foi a escala. Produzir mais conteúdo, estar em mais canais, gerar mais leads. A barreira de entrada era o tempo e a criatividade humana. Mas, com a explosão da Inteligência Artificial Generativa (como ChatGPT, Claude e Midjourney), essa barreira caiu por terra. De repente, qualquer pessoa com um prompt simples pode gerar dez artigos de blog, trinta posts de LinkedIn e cinco roteiros de vídeo antes mesmo do café da manhã.
À primeira vista, parece o sonho da produtividade. Mas, se olharmos com atenção, algo preocupante começa a surgir no horizonte. Quando a criação de conteúdo se torna instantânea e acessível a todos, o diferencial de "criar" desaparece. Estamos entrando em uma era de abundância de texto, mas de escassez de insight. A internet está sendo inundada pelo que alguns especialistas chamam de "bege digital": uma massa de conteúdo tecnicamente correto, gramaticalmente perfeito, mas profundamente sem alma e mediano.

Essa opinião pode soar impopular em meio ao hype tecnológico, mas é necessária: se não tivermos cuidado, a IA não vai elevar o nível do mercado; ela vai nivelar tudo por baixo. Neste artigo, vamos explorar por que isso acontece e como você pode evitar cair na armadilha da irrelevância.
O mecanismo da mediocridade: por que a IA nivela por baixo
Para entender por que a IA gera mediocridade, precisamos entender como ela funciona. Ferramentas como o ChatGPT são "máquinas de previsão". Elas foram treinadas em quase todo o conteúdo da internet para prever a próxima palavra mais provável em uma frase.
E aqui está o problema: a "palavra mais provável" é, por definição, a escolha média.
A IA busca padrões. Ela evita o risco, o inusitado, o erro criativo que muitas vezes leva à genialidade. Quando você pede um texto sobre "liderança", ela devolve o consenso médio de tudo o que já foi escrito sobre liderança. O resultado é um conteúdo pasteurizado, livre de arestas, mas também livre de sabor. É como comida de hospital: nutre, está correto, mas ninguém se apaixona por ela.
A fricção atual acontece justamente aqui: as empresas estão demitindo redatores e estrategistas para "ganhar eficiência" com a IA, sem perceber que estão trocando personalidade por volume. O resultado é um feed de redes sociais onde todos os posts parecem ter sido escritos pela mesma pessoa, com a mesma estrutura de tópicos e os mesmos adjetivos corporativos vazios.
Modelos de Conteúdo: Do Artesanal ao Híbrido
Assim como as carreiras evoluíram, a produção de conteúdo e marketing também está passando por uma metamorfose de modelos. Antes, vivíamos a era da escassez criativa; agora, vivemos a era da curadoria estratégica.
Podemos classificar o marketing atual em três grandes abordagens. A Abordagem Artesanal, que é lenta e cara, mas autêntica; a Abordagem Algorítmica (Pura IA), que é rápida e barata, mas genérica; e a Abordagem Híbrida (Centauro), onde o humano pilota a máquina para amplificar uma visão única.
Veja o comparativo abaixo para entender onde está o risco e onde está a oportunidade:

O perigo real é que a maioria das empresas está migrando do modelo Artesanal direto para o Algorítmico, atraídas pela promessa de redução de custos. Elas esquecem que, em um mar de iguais, o diferente é quem cobra mais caro. A IA democratizou a média.
Ser "bom" ou "correto" deixou de ser um diferencial competitivo.
O valor premium da experiência real
Se a IA consegue explicar conceitos melhor e mais rápido que qualquer um, o que sobra para nós? A resposta é simples e poderosa: a experiência vivida.
A IA não tem filhos, não liderou uma equipe em crise, não faliu uma empresa, não sentiu o frio na barriga antes de uma palestra. Ela tem informação, mas não tem sabedoria. No futuro próximo do marketing, o conteúdo puramente informativo ("O que é X", "5 dicas para Y") valerá perto de zero, pois a IA entrega isso em segundos.
O valor migra para o conteúdo opinativo e empírico. O novo ativo de luxo é o ponto de vista humano.
Curadoria > Criação: Saber escolher o que importa em meio ao caos de informações será mais valioso do que gerar mais informação.
Histórias Reais: "Como eu resolvi esse problema" vale 10x mais do que "Como resolver problemas".
Imperfeição: Ironicamente, textos com gírias, opiniões fortes e até uma certa "sujeira" estilística passarão a ser vistos como sinais de autenticidade humana, enquanto textos polidos demais levantarão a suspeita de serem sintéticos.
O desafio para as marcas será resistir à tentação de usar a IA no piloto automático. A ferramenta deve ser o estagiário, nunca o diretor de criação.
Aposte na experiência humana
Estamos diante de uma bifurcação. De um lado, o caminho da mediocridade confortável, onde marcas e profissionais usam a IA para fazer "mais do mesmo" mais rápido, transformando a internet em um grande eco de platitudes. Do outro, o caminho da relevância, onde a tecnologia é usada para eliminar o trabalho braçal, liberando o humano para ser, finalmente, humano.
Não se engane: a IA é uma ferramenta incrível e deve ser usada. Mas ela não substitui a cicatriz, a vivência e a opinião. O marketing do futuro não é sobre quem tem o melhor prompt, mas sobre quem tem a melhor história e a coragem de contá-la com sua própria voz.
Se você quer fugir da mediocridade, pare de perguntar ao ChatGPT "o que escrever". Comece a perguntar a si mesmo "o que eu vivi que a máquina não sabe?". É nessa resposta que mora o seu valor. A era da informação acabou; bem-vindos à era da curadoria e da autenticidade.

Emi Monteiro
Gestora MKT Drin Inovação
@emiimonteiro




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